Não é fácil falar de quem nos deixou, pode ser mãe, pai, filho, tio, primo, marido, esposa ou filho. Eles nos deixam. E lidar com esta avalanche de emoçoes é difícil e cruel. Nos acostumam a aceitar a ida do outro. Mas não nos informam como lidar com a emoção da perda. Não é mesma coisa que ser deixado por alguém encarnado, namorado, marido ou sei lá. Sabemos que eles continuam por ai e, que podemos ou não, nos encontrar algum dia. Com os que se vão para sempre desta existência, fica mais complicado a aceitação. Nada é por acaso. Somente HOJE, tres meses após a partida dos dois filhos da Helô, consigo "achar" um texto interessante sobre estas emoções .... O Universo é um mistério!
Abrir espaço para sentir emoções fortes by Bel Cesar
Quando acompanhamos de perto o processo de morte de uma pessoa querida, vivenciamos os sentimentos com uma intensidade muito particular. Afinal, quando escutamos a pessoa que está falecendo falar, sabemos que estas podem ser as suas últimas palavras... com isso, elas ganham um valor imensurável. Assim como a última troca de olhares conscientes. O último sorriso. A última lágrima compartilhada de mãos dadas. A vivência da última vez gera grande intensidade emocional. No entanto, como não estamos acostumados a criar espaço interno para sentir emoções muito fortes, procuramos evitá-las, mesmo sem saber por que. Parece paradoxal, mas a grande maioria das vezes que somos tomados por emoções intensas, sejam elas geradas por paixão, alegria ou tristeza, parte de nosso ser procura rejeitá-las, pois tememos que, ao senti-las, iremos perder nosso costumeiro autocontrole, com o qual garantimos a sensação de segurança interior.Não estou querendo dizer que para sentir verdadeiramente as emoções, deveríamos nos perder e nos descontrolar emocionalmente, mas sim que, para sentir o ciclo natural de uma emoção, precisamos nos deixar ser tocados por sua intensidade até que ela atinja o seu pico e volte naturalmente a ceder. Assim, iremos recuperar a serenidade perdida durante a crise. A autocrítica e o medo de sermos tomados por um descontrole desconhecido nos impedem de lidar diretamente com nossas emoções. Desta forma, geramos tensão e conflito entre nossas necessidades emocionais e racionais. Há emoções que precisam simplesmente ser vivenciadas, sem interpretações racionais. Outras, por sua vez, contam com a elaboração racional para um direcionamento positivo de sua carga energética. Emoção é energia em movimento, que necessita tanto ser expressa quanto ter um direcionamento para fluir. Uma emoção não expressa permanece em nosso corpo como energia contida, pulsante e bloqueada. Abrir espaço para sentir as emoções contidas há muito tempo assemelha-se à imagem de abrir as comportas de uma represa: a pressão da água é tão intensa quanto a necessidade de chorar uma dor retida. Portanto, não há como negar que teremos de abrir espaço dentro e fora de nós mesmos para extravasá-la sem barreiras, de modo que ela possa fluir e completar o seu ciclo natural de início, meio e fim.Para tanto, é necessário criarmos rituais personalizados, nos quais possamos sentir nossas emoções na sua inteireza. Precisamos encontrar o lugar, o tempo e as pessoas apropriadas que nos encorajem a auto-aceitação e a auto-expressão contidas até então. Apropriadas quer dizer, tudo aquilo que nos ajude a nos sentirmos ancorados, acolhidos, nutridos e, ao final do processo, conectados com uma idéia de futuro e renovação.Digerir experiências emocionais requer tempo e condições livres de interrupções e críticas.Algumas vezes, criamos estes rituais espontaneamente. Nossa sabedoria intuitiva sabe como atender às necessidades da alma. No entanto, outras vezes temos que primeiro nos conscientizar da necessidade de realizá-los. Robert Sardello, em seu livro Liberte sua alma do medo (Ed. Fissus), escreve sobre a importância de homenagearmos nossas emoções para vivermos nosso próprio processo de morte positivamente: Se vivemos sem sentir verdadeiramente a presença da beleza no mundo, que é uma experiência tanto de admiração quanto de dor, ficamos enfraquecidos em nossa capacidade de enfrentar a intensidade de sentimento que caracteriza o sofrimento. Em outras palavras, a dor do sofrimento parece tão grande porque o sentimento de admiração não foi cultivado. Em grande parte, o medo do sofrimento expressa um medo mais oculto: o de que, apesar de o termos rejeitado durante grande parte de nossa vida, finalmente iremos experimentar o verdadeiro sentimento. Talvez esse sentimento vá estar comprimido em um período muito curto, especialmente se foi negligenciado durante muito tempo. O preço dessa negligência, no entanto, é alto. Quando o sentimento irrompe no final da vida, perde o contexto de beleza e, muitas vezes, pode ser experimentado apenas como angústia.Simplesmente chorar e ser este choro. Simplesmente comemorar, e ser, por meio de nossa própria energia, uma homenagem de reconhecimento e gratidão. Assim como subir uma montanha para ouvir a música preferida da pessoa falecida e dedicar a ela esta atitude de amor e saudade. Ou, quem sabe, plantar em seu jardim, ou mesmo num simples vaso, suas flores preferidas. O importante é abrirmos espaço dentro e fora de nós para honrar este rico dom humano de sentir emoções!

